sexta-feira, setembro 12, 2014

Aos sensíveis (ou ao menino João)

           Eu sempre fui dada às emoções. Ao longo dos meus vinte anos de vida, essa sensibilidade exagerada foi pesada pra mim. Mais precisamente nos últimos cinco anos, em que eu me propus a expor o meu pensamento para o mundo. Descobri dolorosamente que o mundo tem forte resistência ao diferente. Ser diferente dói. Amar o diferente dói. Divulgar apoio ao diferente dói. Quis muitas vezes voltar no tempo, quando eu não me expunha tanto e não recebia golpes monstruosos por isso. Ao lado da minha emancipação de visão de mundo, andava a frustração de perceber quantas vezes eu via o amor ser retaliado por discursos de ódio disfarçados de altruísmo. Os meus heróis não morreram de overdose. Os meus heróis morreram queimados em fogueiras por serem bruxas, enforcados e jogados em terrenos baldios por viverem amor. Os meus heróis acabaram com a própria vida por não conseguirem segurar o fardo pesado do diferente. Os meus heróis são todos os homossexuais que saem de casa todos os dias sabendo que podem ser agredidos, humilhados, mortos e jogados em qualquer lugar, como se fosse maior que a própria vida humana essa intolerância pela diferença. Minhas heroínas são  as mulheres que vão às ruas para vingar as suas tataravós que viram o seu direito de ir e vir dependente da subjugação de seus maridos e filhos. Por vezes, sinto como é difícil caminhar quando parece que estamos sozinhos. Esse texto tem um propósito além do meu desabafo choroso: Quero dizer que estamos juntos! Que não somos poucos! Que enquanto houver direito ao grito, gritemos no mais alto tom.  Este texto é um comunicado aos sensíveis: Uni-vos! Carreguemos juntos o peso de acreditar no amor e no respeito ao próximo no dia de hoje. Eu sou amor de corpo inteiro, além do que as minhas palavras dizem. E não é (não é!) um livro embaixo do braço de um homem mal que vai mudar isso. Não nos deixemos abater. Não somos fracos, senhor Malafaia. Não somos pequenos. Não vamos cair! Parafraseio Belchior nesse meu fim de texto: Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer "não", eu grito. O ódio não pode nós calar. O ódio não vai nos calar.

Esse texto é para todos os que andam comigo, mas especialmente em memória ao menino João Donati, para minha amiga e companheira Carla Carniel e para meu professor e motivador Saulo Almeida.


O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; 
o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. 
(...) não busca os seus interesses, 
não se irrita, não suspeita mal; 
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; 
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 

terça-feira, setembro 09, 2014

Ella

        
        Na primeira vez que a vi ela me arregalou aqueles olhos muito negros como quem não acreditava no que via. Ao tempo em que parecia extasiada, sorria maliciosa. Eu sorri também, compreendendo o que acontecia. Desde aquele dia, eu não sei que tipo de magia me fez querer tanto aquela moça. Eu sabia que havia reciproca. Eu sabia que um passo meu nos conduziria para um infinito de prazeres. Sonhava como um tolo em ter aqueles braços enrolados nos meus braços, aqueles cabelos caindo nos meus ombros. Por dias, eu nem pensava mais em mim: Era a imagem dela que permanecia gravada na minha memória. Quando parecia sumir, vinha a imagem real. Linda! Linda e livre. Ela expirava tanta liberdade, que às vezes parecia me cortar a carne num só olhar. Como se a cada vez que ela olhasse pra mim, eu me sentisse um pouco mudado pela sua maneira de ver o mundo. Eu torto, estranho, querendo ser o herói da história dela. O que eu não percebi é que ela era a sua própria heroína. Ela não precisava de mim, e talvez isso fosse a parte mais latente na minha paixão. Aquela certeza escancarada de que ela podia mais era das coisas mais apaixonantes. Mas numa tarde escura de outono, ela se foi. Nenhum recado, uma pista de onde estaria, um pedacinho de história que ela quisesse deixar. Nada. Eu não tive tempo de lhe contar sobre os meus devaneios, nem de saber se havia forma de os meus textos passarem do papel amarrotado para a realidade. Ela se foi. Mas o cheiro dela ainda está aqui. E todas as vezes em que puxo o ar mais fundo para sentir, sinto o gosto que ficou do café que eu tomava quando os seus olhos pousaram sobre os meus uma ultima vez. Tive vontade de ter feito uma foto, como fiz tantas vezes, de tantos outros momentos. Queria aquele momento palpável, táctil. E tive. Guardado na memória, lá no fundo de alguma gaveta empoeirada, ela permaneceria. Aquela moça ficaria. Como um encontro que se desfaz com a certeza de que acontecerá de novo, inteiro.