terça-feira, setembro 09, 2014

Ella

        
        Na primeira vez que a vi ela me arregalou aqueles olhos muito negros como quem não acreditava no que via. Ao tempo em que parecia extasiada, sorria maliciosa. Eu sorri também, compreendendo o que acontecia. Desde aquele dia, eu não sei que tipo de magia me fez querer tanto aquela moça. Eu sabia que havia reciproca. Eu sabia que um passo meu nos conduziria para um infinito de prazeres. Sonhava como um tolo em ter aqueles braços enrolados nos meus braços, aqueles cabelos caindo nos meus ombros. Por dias, eu nem pensava mais em mim: Era a imagem dela que permanecia gravada na minha memória. Quando parecia sumir, vinha a imagem real. Linda! Linda e livre. Ela expirava tanta liberdade, que às vezes parecia me cortar a carne num só olhar. Como se a cada vez que ela olhasse pra mim, eu me sentisse um pouco mudado pela sua maneira de ver o mundo. Eu torto, estranho, querendo ser o herói da história dela. O que eu não percebi é que ela era a sua própria heroína. Ela não precisava de mim, e talvez isso fosse a parte mais latente na minha paixão. Aquela certeza escancarada de que ela podia mais era das coisas mais apaixonantes. Mas numa tarde escura de outono, ela se foi. Nenhum recado, uma pista de onde estaria, um pedacinho de história que ela quisesse deixar. Nada. Eu não tive tempo de lhe contar sobre os meus devaneios, nem de saber se havia forma de os meus textos passarem do papel amarrotado para a realidade. Ela se foi. Mas o cheiro dela ainda está aqui. E todas as vezes em que puxo o ar mais fundo para sentir, sinto o gosto que ficou do café que eu tomava quando os seus olhos pousaram sobre os meus uma ultima vez. Tive vontade de ter feito uma foto, como fiz tantas vezes, de tantos outros momentos. Queria aquele momento palpável, táctil. E tive. Guardado na memória, lá no fundo de alguma gaveta empoeirada, ela permaneceria. Aquela moça ficaria. Como um encontro que se desfaz com a certeza de que acontecerá de novo, inteiro.

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