sábado, maio 23, 2015

"Mariquinha, vai se vestir!"

Foto por: Chris Arruda


Ela ouvia, fazia cara de quem nem se importava. Era isso: Ser independente de qualquer limitação. Morre, na minha cidade, "a louca". Quantas vezes ouvi essa expressão e usei como quem divide o mundo entre os normais e os loucos? Lembro que certa vez discuti sobre a nudez de Mariquinha. Fiquei vendo os olhos na mesa cheios de vontade de limitar, regrar, problematizar. Pouco sabem que a nudez de Mariquinha é a de quem não sabe mais, porque esqueceu que um dia foi ensinada que nudez é proibida. E louca não sou eu que ando vestida sem querer estar? Loucos não somos nós que acordamos todos os dias sem querer acordar, comemos o que não queremos comer? Vivemos incompletos, insatisfeitos, buscando qualquer coisa que não sabemos o que é, mas que se afigura com um buraco enorme no peito. A gente faz um esforço danado pra ser livre, e esquece que a liberdade está em saber ser sem dificuldade. Mariquinha foi-se embora como era: sem dor. Sem medo. Perto de Deus. Tão perto de Deus e tão singular que faz as pessoas rirem diante da morte. Tão livre que não coube nesse mundo pequeno. 


segunda-feira, maio 04, 2015

Estrangeiro regresso

O homem do outro lado da linha fala sobre um universo psicodélico e imaginário. Ela procura não se importar. Faz de conta que ri e disfarça o coração aos pulos. Eles não podem notar. Ele fala de amor com propriedade, enquanto ela o vê despido, frágil, entregue. Ele é só desespero e lágrima. Esbraveja palavras sobre ausência, como quem se justifica pela vida inteira. É tarde demais, ele sabe, ela sabe.

- Quando você falar com alguém, diga: ele me amou demais. Ele foi a pessoa que mais me amou na vida.

 Enquanto os soluços tomam a sala, ela fuma o ultimo cigarro. Pigarreia. Respira fundo.

 - Eu te amo, filha.

Silêncio. Fim.

Do querer

Ela esconde uma magia singular naquele sorriso aberto, parece que nele habita a luz do mundo inteiro. E me rasga, também inteiro, quando não posso tocar os seus lábios, sentir os seus dedos, os seus olhares, os seus detalhes. Fotografo todo aquele corpo que se perde entre a adolescência e a maturidade. Toda a confusão é encantadora. A poesia discreta dos seus olhos se traduz nas entrelinhas do seu rosto pueril. A fumaça do seu cigarro me come as narinas e se mistura aos seus longuíssimos cabelos negros. Quero sentir mais, de perto. Quero fumar o seu cigarro e a sua boca. Quero beijá-la como quem dá o último trago, como quem bebe o último gole da bebida preferida. Devagar, cuidadosamente, tentando saciar a sede, prolongar o deleite. Quero a delícia do prazer de descobrir os seus sentidos, os seus gemidos. Quero o pulsar do seu coração no meu peito. Quero o cheiro doce no silêncio das horas longas, nessas noites vazias e insones. No brilho da lua, nas quartas-feiras de jazz. Quero a gosto da travessia pelas tuas curvas. Quero ser o que não dói e descansa na terra do desejo. Quero um punhado de maluquices impossíveis.