sexta-feira, julho 22, 2016

Solar


Eu queria que você quisesse sentar comigo embaixo dessa macieira, que de tão verdinha parece nem ser real. Sentar comigo e falar de qualquer bobagem solta, sem ensaiar as palavras, sem desviar os olhos. Sem pensar em nada de dor. Eu queria que você quisesse amar esse meu amor intranquilo, e queria que você gostasse de parar as minhas mãos agitadas e trêmulas segurando-as forte entre as suas. Que você falasse com veemência essas frases que diz de vez em quando como se elas não fossem fortes e nem me bagunçassem inteira. Eu queria que você sentisse o calor da minha alma perdida no meio dessa frieza sem fim. Que você entendesse que ninguém encontra por acaso nessas esquinas tortas da vida alguém que enxerga com uns olhares tão parecidos. Que você descobrisse que o meu amor é desses que te deixariam desnorteado, aturdido de desejo. Eu queria que você quisesse perder o juízo e o fôlego. Que você me emprestasse as suas horas para sossegar cabeça no meu ombro e cochichar umas besteiras bonitas. Que você soubesse que eu te amo baixinho porque gritar deixaria a mostra todas as minhas mazelas e feridas. E eu não saberia te ser olho marejado nem chaga exposta, meu bem.  

Eu quero te ser domingo de sol e amor de uma vida inteira. 

sábado, junho 11, 2016

Memórias do cárcere

Caríssimo,

Te escrevo hoje como quem escreve num diário: de alma exposta e sem preocupação com a norma. Nem sei ao certo porque escrevo para o seu destinatário, se sei que da última vez em que me pus a fazê-lo as minhas palavras ficaram perdidas numa resposta de silêncio. Talvez porque o silêncio seja já um velho conhecido. Queria não começar lhe dizendo que tudo vai mal, mas o certo é que os dias parecem caminhar prum abismo sem escapatória. O mais engraçado é que eu tenha passado tanto tempo fugindo dessas relações controladoras e agora me veja aqui: refém. Refém disso que chamam por aqui de amor. Todos os bons samaritanos cuidam dos meus ferimentos tanto quanto me julgam merecedora deles. Eu tenho ouvido uns discos e lido uns livros, tenho tentado escrever (mesmo essa carta é um exercício que me dá a certeza de que estou viva e existo), mas tenho tido vontade de pôr fim a tudo por diversas vezes. Algumas visitas me fazem sorrir por uma ou duas horas, só que no fim sou só eu. Ninguém enxerga nos meus olhos o pedido desesperado de ajuda, de uma voz qualquer que se coloque por mim. A realidade é que todos tem os seus próprios cárceres e estão demasiado ocupados para se preocupar com o meu. Eu quis, nos meus sonhos petulantes, um mutirão, um protesto. Depois, quis uma ligação qualquer de alguém que dissesse precisar de mim, quis que uma só pessoa (dessas tantas que no caminho disseram se importar) pudesse pagar a fiança. Mas nada veio. As pessoas perguntam se eu estou bem e se estou sabendo administrar o caos. É nessas horas em que eu me coloco numa auto-análise, como figurante de mim, me avalio, me critico, me desconcerto, me condeno. É nessas horas em que tento fazer da doença uma parte de mim e não eu parte dela. É nessas horas em que a saudade de tudo está à flor da pele, que eu me escondo em pensamentos frívolos, vontades dizimadas, retratos de mim e de lutas diárias, as certezas todas dos dias em que exalava liberdade, tudo me esvaindo pelos dedos, até quando finda todo o depósito de ilusões e estou sozinha de novo. Aí, meu querido... nem eu mesma para me alentar. Bom, peço que me perdoe por escrever como se ainda fosse ler, é das coisas que eu não soube mudar nestes anos. Me perdoe por esperar um dia ouvir o seu assobio do lado de fora dessas grandes, nos meus sonhos insuportavelmente românticos.

Te cuida, moço.
(Eu ainda continuo aqui,
mesmo que às vezes doa... ou sempre.)

segunda-feira, abril 04, 2016

Dos desvarios

"Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas aqui do outro lado
Tudo plugado, tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos..."


Em que momento eu me perdi? - Me pergunto, fumando o sexto ou sétimo cigarro, num desespero que pensei não me aparecer mais. Essas dimensões exacerbadas e esse platonismo fazem com que eu me sinta uma menina de 13 anos. Mas é aí que a voz da sensatez me faz entender que o passar dos anos mudou quase tudo, menos essa sensibilidade agonizante. Essa mania de guardar as vozes e gestos, de deixar que tudo (tudo!) me tome o juízo e dilacere as minhas certezas. Vago nessas ruas desertas enquanto um punhado de músicas continua me descrevendo (há quantos anos?). Sou toda inteireza de sentir. Essas pessoas se abrigam em mim, só que na realidade são como ventania que passa muito muito rápido. No mundo real, sei que sou nada. Mas na fantasia é que desatino. Deve ser característica nata dos sensíveis fantasiar. E guardar em sigilo todo sentimento. Deve ser característica dos sensíveis ser qualquer coisa ininteligível, incompreensível. Qualquer dessas coisas que é nada nada e tudo. Que é sem razão de ser. De algum lugar que de tão tenebroso e feio não sabe ser amor. 

sábado, março 19, 2016

[...]

Todas as vezes em que eu dizia "eu nunca", me punha na distância óbvia entre nós duas. Em tudo que ela é e eu não sou.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

Náufrago

Ignorante do naufrágio que me trariam os teus olhos, naveguei. Ficou essa saudade infantil e irresponsável, de quem não sabe ficar. De quem não sabe ser gente madura que não se apetece. De quem quis ser cais. Qualquer coisa dessas que dominam a sensatez e fazem a gente ranger os dentes. 

Talvez

Talvez eu seja um daqueles seres
Desajustados, desacertados
Daquele tipo de gente
Que não nasceu pra ser feliz