quinta-feira, setembro 14, 2017

Súplica n° 1

fazem só cinco minutos que você desceu as escadas do meu prédio e eu fiquei te olhando aqui da minha janela, vendo seus cabelos dreadlooks balançarem enquanto você dava passos largos. o primeiro ímpeto é o de sentir saudade, vazio e grandeza nesse apartamento de 5x5. mas logo a angústia vai embora porque sei que você volta. é só chamar. na semana que vem, quando já não pudermos mais ser chamados de algo que remeta a qualquer seriedade, você volta. você sempre volta. com a mesma cara lavada e o mesmo corpo leve. esse corpo de homem. cheiro de homem. gosto de homem. e eu vou abrir a porta pra você todas as vezes. fingindo que amarrei displicentemente os cabelos como se não tivesse olhado aquele espelho mil vezes. fingindo que "one love" do u2 tocou no aleatório. fingindo que pus aquele camisão pra ficar à vontade, quando na verdade eu só queria que você falasse sobre a minha calcinha à mostra. e você fala. você olha. você me beija a boca e os pés. os pés. esse carinho devotado que os meus amigos comentam e que eu tento encaixar nas tuas frases frias por essa tela de sete polegadas. e mais ainda nas quentes. eu me perco e me pergunto o porque da sua presença tão forte nas minhas horas.

aí eu lembro que você é um pássaro livre e que jamais pousaria na minha mão por mais de uma noite. e no meio dessa sua cara de pau eu vou tentando encontrar coisas que me digam que sou só isso. uma amiga fiel, uma distração eficiente, uma fuga da realidade dura de tentar ser quem você não é ou aquela foda boa, fácil e de graça que te faz voltar pra casa sorrindo e ouvindo The Black Keys.

terça-feira, março 07, 2017

Mulher é resistência

Eu nasci. Nasci e deram a notícia: mulher. Quando dei por mim, gostei de ser. Mas algo parecia não se encaixar. Me fizeram fêmea. Me guiaram com voz mansa: - vem por aqui. Cruzei os braços e não fui. A voz se metamorfoseou num grito de brutalidade. Logo me disseram que era do ser homem a força bruta. Fui entendendo e não me encaixei. Queriam de mim a subserviência de Amélia, mas fui militância de Pagu. Desviei do caminho proposto. Descobri, que mesmo quando parecia clara a resposta, ela era imposta. Desfeita a venda que me punha cega, gritei: Eu sou Simone de Beuvoir! Eu sou Frida Kahlo! Eu sou a moça que teve sua privacidade violada. Eu sou a menina que é julgada pela sociedade por se relacionar com muitos homens. Eu sou a noiva que não casou virgem. Eu sou a mulher que é chamada de frígida por ainda ser virgem. Eu sou a fã que pediu pra ser estuprada pelo ídolo porque entrou sozinha na sua van. Eu sou a estudante barrada na porta da universidade por estar com um vestido curto demais. Eu sou a adolescente gorda que sofre de depressão por não estar dentro do padrão de beleza. Eu sou a menina que morre de anorexia buscando ser aceita. Eu sou a moça que ganha um salário inferior ao homem que exercita a mesma tarefa que ela. Eu sou a moça que mente sobre o que faz para não receber olhares de reprovação. Eu sou a moça que ouve "gostosa", "que delícia", "quero te foder" todos os dias na rua. Eu sou a transsexual morta a facadas e jogada num terreno baldio. Eu sou a menina que perdeu a virgindade com o rapaz que só queria contar vantagem por isso. Eu sou a mulher periférica que morre numa tentativa de aborto. Eu sou a prostituta que é violentada por "não ter um trabalho digno". Eu sou a moça esmagada pela baixa auto estima. Eu sou a "menina para se divertir" e não "menina pra casar". Eu sou a criança molestada pelo pai, pelo tio, pelo padrasto. Eu sou um número nas estatísticas de violência doméstica. Eu sou a mulher traída que mereceu, porque não cuidou do que tinha. Eu sou a amante que tem toda a culpa, porque seduziu o homem indefeso. Eu sou a cinquentona que "ficou pra titia". Eu sou a lésbica que precisa de cura e de um homem de verdade. Eu sou a esposa que lava, passa, cozinha e cuida dos filhos. Eu sou Maria da Penha. Eu sou Chiquinha Gonzaga. Eu sou Nise da Silveira. Eu sou Olga Benário. Eu sou mulher. Eu sou livre. Eu sou minha. E deixo aqui um último recado: Do nascimento até morrer, mulher é RESISTÊNCIA. E a gente já aprendeu a gritar.