terça-feira, março 07, 2017

Mulher é resistência

Eu nasci. Nasci e deram a notícia: mulher. Quando dei por mim, gostei de ser. Mas algo parecia não se encaixar. Me fizeram fêmea. Me guiaram com voz mansa: - vem por aqui. Cruzei os braços e não fui. A voz se metamorfoseou num grito de brutalidade. Logo me disseram que era do ser homem a força bruta. Fui entendendo e não me encaixei. Queriam de mim a subserviência de Amélia, mas fui militância de Pagu. Desviei do caminho proposto. Descobri, que mesmo quando parecia clara a resposta, ela era imposta. Desfeita a venda que me punha cega, gritei: Eu sou Simone de Beuvoir! Eu sou Frida Kahlo! Eu sou a moça que teve sua privacidade violada. Eu sou a menina que é julgada pela sociedade por se relacionar com muitos homens. Eu sou a noiva que não casou virgem. Eu sou a mulher que é chamada de frígida por ainda ser virgem. Eu sou a fã que pediu pra ser estuprada pelo ídolo porque entrou sozinha na sua van. Eu sou a estudante barrada na porta da universidade por estar com um vestido curto demais. Eu sou a adolescente gorda que sofre de depressão por não estar dentro do padrão de beleza. Eu sou a menina que morre de anorexia buscando ser aceita. Eu sou a moça que ganha um salário inferior ao homem que exercita a mesma tarefa que ela. Eu sou a moça que mente sobre o que faz para não receber olhares de reprovação. Eu sou a moça que ouve "gostosa", "que delícia", "quero te foder" todos os dias na rua. Eu sou a transsexual morta a facadas e jogada num terreno baldio. Eu sou a menina que perdeu a virgindade com o rapaz que só queria contar vantagem por isso. Eu sou a mulher periférica que morre numa tentativa de aborto. Eu sou a prostituta que é violentada por "não ter um trabalho digno". Eu sou a moça esmagada pela baixa auto estima. Eu sou a "menina para se divertir" e não "menina pra casar". Eu sou a criança molestada pelo pai, pelo tio, pelo padrasto. Eu sou um número nas estatísticas de violência doméstica. Eu sou a mulher traída que mereceu, porque não cuidou do que tinha. Eu sou a amante que tem toda a culpa, porque seduziu o homem indefeso. Eu sou a cinquentona que "ficou pra titia". Eu sou a lésbica que precisa de cura e de um homem de verdade. Eu sou a esposa que lava, passa, cozinha e cuida dos filhos. Eu sou Maria da Penha. Eu sou Chiquinha Gonzaga. Eu sou Nise da Silveira. Eu sou Olga Benário. Eu sou mulher. Eu sou livre. Eu sou minha. E deixo aqui um último recado: Do nascimento até morrer, mulher é RESISTÊNCIA. E a gente já aprendeu a gritar.

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